Poder Judiciário
TRIBUNAL REGIONAL FEDERAL DA 2ª REGIÃO

Apelação Cível Nº 5000691-33.2025.4.02.9999/ES

PROCESSO ORIGINÁRIO: Nº 0001139-86.2014.8.08.0037/ES

RELATORA: Juíza Federal GERALDINE PINTO VITAL DE CASTRO

RELATÓRIO

Trata-se de apelação cível interposta por CONSELHO REGIONAL DE ENGENHARIA E AGRONOMIA DO ES, contra a sentença de Evento 1, APELACAO1, fls. 13/17, proferida pela Vara Única de Muniz Freire/ES, que, em execução fiscal movida em face de CONSTRUTORA MASTERS LTDA, julgou extinto o processo [execução fiscal de débito no valor originário de 272,50 (duzentos e setenta e dois reais e cinquenta centavos) (Evento 01, INIC2, fl. 2 e 3)], sem resolução do mérito, pois não preencheu os requisitos previstos na Resolução nº 547 do CNJ, resguardado ao exequente o direito à realização de medidas administrativas de cobrança. 

Em suas razões recursais, Evento 1, APELACAO1, fls. 05/10, a parte recorrente alega, em suma, que: 

  1. O valor cobrado na CDA (R$ 3.470,64) ultrapassa o limite mínimo legal previsto no art. 8º da Lei nº 12.514/2011, alterada pela Lei nº 14.195/2021, que veda o ajuizamento de execuções fiscais com valor inferior a cinco vezes o valor da anuidade do conselho (R$ 500,00).
  2. No caso dos conselhos profissionais como o CREA, o limite seria de R$ 2.885,55, ou seja, inferior ao valor da dívida executada.
  3. A sentença extinguiu definitivamente o processo, quando o correto, segundo a legislação específica, seria o arquivamento sem baixa na distribuição, conforme determina o §2º do art. 8º da Lei nº 12.514/2011.

Sem contrarrazões (Evento 1, APELACAO1, fl. 3 e 4).

O Ministério Público Federal manifesta-se no Evento 11 e aduz que não há interesse público que justifique a sua atuação no processo.

É o relatório.                 

GERALDINE VITAL 

Juíza Federal Convocada

VOTO

Juíza Federal GERALDINE VITAL (Relatora):

Conheço do recurso, eis que presentes os pressupostos de admissibilidade.

A controvérsia recursal cinge-se à aplicabilidade da Resolução CNJ nº 547/2024 às execuções fiscais ajuizadas anteriormente à sua vigência, bem como à adequada observância dos parâmetros fixados pelo Supremo Tribunal Federal na tese vinculante do Tema 1184, em sede de repercussão geral:

"1. É legítima a extinção de execução fiscal de baixo valor pela ausência de interesse de agir tendo em vista o princípio constitucional da eficiência administrativa, respeitada a competência constitucional de cada ente federado.

2. O ajuizamento da execução fiscal dependerá da prévia adoção das seguintes providências: a) tentativa de conciliação ou adoção de solução administrativa; e b) protesto do título, salvo por motivo de eficiência administrativa, comprovando-se a inadequação da medida.

3. O trâmite de ações de execução fiscal não impede os entes federados de pedirem a suspensão do processo para a adoção das medidas previstas no item 2, devendo, nesse caso, o juiz ser comunicado do prazo para as providências cabíveis."

Tem-se que o STF reconheceu a legitimidade da extinção de execuções fiscais de pequeno valor, por ausência de interesse de agir, desde que verificada a desproporcionalidade entre o custo da persecução judicial e o valor do crédito, considerados os princípios da eficiência administrativa, inafastabilidade da jurisdição e separação dos poderes.

A tese vinculante fixada ao Tema 1184 pelo STF impõe a prévia adoção de medidas extrajudiciais de cobrança, como tentativa de conciliação ou solução administrativa, e protesto do título executivo, salvo comprovada ineficácia ou inadequação da medida, e autoriza a extinção de execuções fiscais que, cumulativamente:

1) possuam valor inferior a R$ 10.000,00;

2) ausência de movimentação processual útil por mais de um ano;

3) inexistência de citação válida ou de bens penhoráveis localizados.

Com efeito.

Esta compreensão foi acolhida pelo Conselho Nacional de Justiça ao editar a Resolução nº 547/2024, que estabelece como condição de procedibilidade para o ajuizamento de execuções fiscais a demonstração da tentativa prévia de solução administrativa (art. 2º) e do protesto ou de medida equivalente (art. 3º). Admite também  a presunção de cumprimento quando houver previsão normativa do ente exequente (§§ 2º e 3º do art. 2º) ou a inscrição do débito em cadastros de inadimplência (parágrafo único do art. 3º).

O art. 1º da Resolução CNJ nº 547/2024 não impõe qualquer limitação temporal à sua aplicação, razão pela qual incide sobre execuções fiscais em curso, mesmo que ajuizadas antes de sua vigência, quando verificados os pressupostos objetivos nela previstos.

No caso concreto, a execução fiscal foi ajuizada antes da vigência da Resolução CNJ nº 547/2024 e constata-se que o valor do crédito executado é inferior ao limite de R$ 10.000,00 - fixado como critério de economicidade pelo CNJ, e que o processo permaneceu inerte por período superior a um ano após a suspensão determinada nos autos, sem citação válida ou localização de bens penhoráveis.

Estas circunstâncias, cumulativas, autorizam a extinção da execução fiscal por ausência superveniente de interesse de agir, nos termos da norma regulamentar e da orientação vinculante do Supremo Tribunal Federal no Tema 1184.

Essa conclusão é obtida ao se interpretar a racionalização da cobrança de créditos públicos, para se reconhecer a admissibilidade da extinção de execuções fiscais de pequeno valor quando ausentes os pressupostos de eficácia da tutela jurisdicional executiva, notadamente em casos de inércia prolongada ou frustração na localização de bens penhoráveis

Assim, verificados os requisitos cumulativos exigidos pela Resolução CNJ nº 547/2024 e pela tese firmada no Tema 1184, reconhece-se a ausência de interesse de agir a justificar a extinção da execução fiscal.

Ante o exposto, voto no sentido de negar provimento à apelação para confirmar integralmente a sentença proferida pelo juízo de origem. Inaplicável ao caso a majoração de honorários de sucumbência, com base no art. 85, §11, do CPC.



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Documento:20002539763
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TRIBUNAL REGIONAL FEDERAL DA 2ª REGIÃO

Apelação Cível Nº 5000691-33.2025.4.02.9999/ES

PROCESSO ORIGINÁRIO: Nº 0001139-86.2014.8.08.0037/ES

RELATORA: Juíza Federal GERALDINE PINTO VITAL DE CASTRO

EMENTA

PROCESSO CIVIL. EXECUÇÃO FISCAL. RESOLUÇÃO CNJ Nº 547/2024. TEMA 1184 DO STF. VALOR EXEQUENDO INFERIOR A R$ 10.000,00. INÉRCIA PROCESSUAL. AUSÊNCIA DE CITAÇÃO E DE BENS PENHORÁVEIS. EXTINÇÃO POR FALTA DE INTERESSE DE AGIR.

1. Reconhece-se a legitimidade da extinção da execução fiscal por ausência superveniente de interesse de agir, quando cumulados os requisitos da Resolução CNJ nº 547/2024 e da tese firmada no Tema 1184 pelo Supremo Tribunal Federal.

2. Configura-se a ausência de interesse de agir diante da inércia processual superior a um ano, da inexistência de citação válida e da frustração na localização de bens penhoráveis, em execução de valor inferior a R$ 10.000,00.

3. Fundamenta-se a conclusão na aplicação da Resolução CNJ nº 547/2024 a processos em curso, ainda que ajuizados antes de sua vigência, ante a ausência de limitação temporal expressa, e na interpretação sistemática da tese vinculante do STF que impõe a adoção prévia de medidas extrajudiciais.

4. Afirma-se a possibilidade de extinção da execução fiscal diante da desproporcionalidade entre o custo da demanda e o resultado útil pretendido, preservados os princípios da eficiência administrativa e da racionalidade da cobrança da dívida pública.

5. Recurso improvido.

ACÓRDÃO

Vistos e relatados estes autos em que são partes as acima indicadas, a Egrégia 8ª Turma Especializada do Tribunal Regional Federal da 2ª Região decidiu, por unanimidade, negar provimento à apelação para confirmar integralmente a sentença proferida pelo juízo de origem. Inaplicável ao caso a majoração de honorários de sucumbência, com base no art. 85, §11, do CPC, nos termos do relatório, votos e notas de julgamento que ficam fazendo parte integrante do presente julgado.

Rio de Janeiro, 28 de outubro de 2025.



Documento eletrônico assinado por GERALDINE PINTO VITAL DE CASTRO, Juíza Federal Convocada, na forma do artigo 1º, inciso III, da Lei 11.419, de 19 de dezembro de 2006 e Resolução TRF 2ª Região nº 17, de 26 de março de 2018. A conferência da autenticidade do documento está disponível no endereço eletrônico https://eproc.trf2.jus.br, mediante o preenchimento do código verificador 20002539763v5 e do código CRC 6aae4979.

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Extrato de Ata
Poder Judiciário
Tribunal Regional Federal da 2ª Região

EXTRATO DE ATA DA SESSÃO NOVA SESSÃO VIRTUAL DE 21/10/2025 A 28/10/2025

Apelação Cível Nº 5000691-33.2025.4.02.9999/ES

RELATORA: Juíza Federal GERALDINE PINTO VITAL DE CASTRO

PRESIDENTE: Desembargador Federal ALUISIO GONÇALVES DE CASTRO MENDES

Certifico que este processo foi incluído na Pauta da Sessão Nova Sessão virtual, realizada no período de 21/10/2025, às 00:00, a 28/10/2025, às 18:00, na sequência 130, disponibilizada no DE de 08/10/2025.

Certifico que a 8ª TURMA ESPECIALIZADA, ao apreciar os autos do processo em epígrafe, proferiu a seguinte decisão:

A 8ª TURMA ESPECIALIZADA DECIDIU, POR UNANIMIDADE, NEGAR PROVIMENTO À APELAÇÃO PARA CONFIRMAR INTEGRALMENTE A SENTENÇA PROFERIDA PELO JUÍZO DE ORIGEM. INAPLICÁVEL AO CASO A MAJORAÇÃO DE HONORÁRIOS DE SUCUMBÊNCIA, COM BASE NO ART. 85, §11, DO CPC.

RELATORA DO ACÓRDÃO: Juíza Federal GERALDINE PINTO VITAL DE CASTRO

Votante: Juíza Federal GERALDINE PINTO VITAL DE CASTRO

Votante: Desembargador Federal MARCELO PEREIRA DA SILVA

Votante: Desembargador Federal ROGÉRIO TOBIAS DE CARVALHO

NILVETE MARIA NOGUEIRA

Secretária



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