Poder Judiciário
TRIBUNAL REGIONAL FEDERAL DA 2ª REGIÃO

Apelação Cível Nº 0517845-33.2011.4.02.5101/RJ

RELATOR: Desembargadora Federal CARMEN SILVIA LIMA DE ARRUDA

RELATÓRIO

1. Trata-se de Apelação interposta pela UNIÃO FEDERAL em face de r. sentença proferida pelo Juízo da 05ª Vara Federal de Execução Fiscal  que​declarou a prescrição intercorrente e extinguiu o processo, nos termos do art. 487, II, do CPC.​(Evento 117).

2. Em suas razões recursais, a apelante argumenta não ter  ocorrido a prescrição intercorrente, destacando que não houve suspensão pelo art. 40 da LEF por um ano seguida de cinco anos de paralisação.​​​(Evento 121).

3. ​Sem contrarrazões.

4. Dispensada a intervenção do Ministério Público Federal, nos termos da Súmula nº 189 do E. STJ.

É o relatório. Peço dia para julgamento​​​​.

VOTO

1. Presentes os pressupostos de admissibilidade, conheço da Apelação, que merece ser provida. 

2. A r. sentença apelada ​declarou a prescrição intercorrente e extinguiu o processo, sublinhando ter decorrido mais de seis anos da suspensão do feito, na forma do artigo 40 e parágrafos da Lei 6.830/80.

3. Da prescrição intercorrente

A nova redação do art. 40 da Lei nº 6.830/1980, instituída pela Lei n.º 11.051/2004, além de prever expressamente a possibilidade de decretação da prescrição intercorrente, autorizou o seu reconhecimento de ofício pelo juízo.

Assim, há dois pressupostos relevantes para a incidência dos referidos dispositivos: (i) que o processo fique paralisado no período de 1 (um) ano; e (ii) que a Fazenda Pública tome ciência daquele ato inicial que paralisa o processo, independente da forma como este ato, na realidade concreta, possa ser emanado.

A questão encontra-se definida com o Tema 566 do C. STJ, conforme julgado pela Primeira Seção do C. STJ, que definiu as regras de da prescrição intercorrente do art. 40 da Lei nº 6.830/1980, in verbis: 

4. Teses julgadas para efeito dos arts. 1.036 e seguintes do CPC/2015 (art. 543-C, do CPC/1973):

4.1.) O prazo de 1 (um) ano de suspensão do processo e do respectivo prazo prescricional previsto no art. 40, §§ 1º e 2º da Lei n. 6.830/80 - LEF tem início automaticamente na data da ciência da Fazenda Pública a respeito da não localização do devedor ou da inexistência de bens penhoráveis no endereço fornecido, havendo, sem prejuízo dessa contagem automática, o dever de o magistrado declarar ter ocorrido a suspensão da execução;

4.1.1.) Sem prejuízo do disposto no item 4.1., nos casos de execução fiscal para cobrança de dívida ativa de natureza tributária (cujo despacho ordenador da citação tenha sido proferido antes da vigência da Lei Complementar n. 118/2005), depois da citação válida, ainda que editalícia, logo após a primeira tentativa infrutífera de localização de bens penhoráveis, o Juiz declarará suspensa a execução.

4.1.2.) Sem prejuízo do disposto no item 4.1., em se tratando de execução fiscal para cobrança de dívida ativa de natureza tributária (cujo despacho ordenador da citação tenha sido proferido na vigência da Lei Complementar n. 118/2005) e de qualquer dívida ativa de natureza não tributária, logo após a primeira tentativa frustrada de citação do devedor ou de localização de bens penhoráveis, o Juiz declarará suspensa a execução.

4.2.) Havendo ou não petição da Fazenda Pública e havendo ou não pronunciamento judicial nesse sentido, findo o prazo de 1 (um) ano de suspensão inicia-se automaticamente o prazo prescricional aplicável (de acordo com a natureza do crédito exequendo) durante o qual o processo deveria estar arquivado sem baixa na distribuição, na forma do art. 40, §§ 2º, 3º e 4º da Lei n. 6.830/80 - LEF, findo o  qual o Juiz, depois de ouvida a Fazenda Pública, poderá, de ofício, reconhecer a prescrição intercorrente e decretá-la de imediato;

4.3.) A efetiva constrição patrimonial e a efetiva citação (ainda que por edital) são aptas a interromper o curso da prescrição intercorrente, não bastando para tal o mero peticionamento em juízo, requerendo, v.g., a feitura da penhora sobre ativos financeiros ou sobre outros bens. Os requerimentos feitos pelo exequente, dentro da soma do prazo máximo de 1 (um) ano de suspensão mais o prazo de prescrição aplicável (de acordo com a natureza do crédito exequendo) deverão ser processados, ainda que para além da soma desses dois prazos, pois, citados (ainda que por edital) os devedores e penhorados os bens, a qualquer tempo - mesmo depois de escoados os referidos prazos -, considera-se interrompida a prescrição intercorrente, retroativamente, na data do protocolo da petição que requereu a providência frutífera.

4.4.) A Fazenda Pública, em sua primeira oportunidade de falar nos autos (art. 245 do CPC/73, correspondente ao art. 278 do CPC/2015), ao alegar nulidade pela falta de qualquer intimação dentro do procedimento do art. 40 da LEF, deverá demonstrar o prejuízo que sofreu (exceto a falta da intimação que constitui o termo inicial - 4.1., onde o prejuízo é presumido), por exemplo, deverá demonstrar a ocorrência de qualquer causa interruptiva ou suspensiva da prescrição.

4.5.) O magistrado, ao reconhecer a prescrição intercorrente, deverá fundamentar o ato judicial por meio da delimitação dos marcos legais que foram aplicados na contagem do respectivo prazo, inclusive quanto ao período em que a execução ficou suspensa.

No precitado julgamento, firmou-se o entendimento de que:

1. Nas hipóteses em que o despacho citatório houver sido proferido em data anterior à vigência da LC nº 118/2005, efetivada a citação, inicia-se, automaticamente, a contagem do prazo prescricional, a partir da data em que a Fazenda Nacional tomar ciência da não localização de bens passíveis de penhora.

2. Nas hipóteses em que o despacho citatório for proferido na vigência da LC 118/2005, a contagem do prazo prescricional se iniciará, automaticamente, a partir da data em que a União for intimada da não localização do devedor e/ou da não localização de bens penhoráveis.​

A prescrição intercorrente da pretensão executiva pressupõe inércia injustificada do credor, o que não se verifica no caso concreto, senão vejamos:​​​​​​

4. Trata-se de Execução Fiscal, ajuizada em 01/07/2011, para cobrança de créditos tributários de contribuição previdenciária e multa, com mandado citatório expedido em 06/10/2011, (Evento 08, OUT3), cuja diligência restou infrutífera, consoante certidão negativa exarada em 19/10/2011.(Evento 08, OUT4).

5. Após a tentativa frustrada de citação, os seguintes atos foram praticados:​

Em 21/11/2011,(Evento 14, OUT6), a exequente requereu a expedição de mandado de citação e penhora em novo endereço, o que foi deferido, cuja diligência frustrada restou certificada em 02/04/2012. (Evento 20, OUT8).

Em 27/04/2012,(Evento 26, OUT10), a União requereu a expedição de mandado de citação e penhora, no mesmo endereço anteriormente indicado, pedido indeferido em 19/02/2014.(Evento 27).

Em 31/03/2014,(Evento 35, OUT12), a exequente requereu a citação por edital, o que foi deferido em 01/04/2014,(Evento 37), efetuada a citação por edital, 03/04/2014 (Evento 40, OUT4), o prazo decorreu sem manifestação da parte, decurso certificado em 07/08/2014.(Evento 42) .

Em 28/08/2014,(Evento 49),  determinada a suspensão do feito,  pelo prazo de um ano, na forma do art. 40  da Lei 6.830/1980 atendendo a decisão 01/04/2014(Evento 37), com ciência da União em 01/09/2014, (Evento 53). .

Em 25/03/2015 a Fazenda requereu a inclusão no polo passivo do feito executivo de M. P..(Evento 57, OUT18)

Em 02/10/2017, (Evento 60), determinada a suspensão do feito, pelo prazo de um ano, na forma do art. 40  da Lei 6.830/1980, sendo a União intimada em 06/10/2017. (evento 63).

Em 30/11/2017,(Evento 71), A União requereu o prosseguimento do feito com a penhora on line de contas e aplicações financeiras pelo sistema BACENJUD, pedido deferido em 20/01/2018, (Evento 73), a qual restou infrutífera.(Evento 78, OUT30).

Em 13/04/2018, (Evento 79),  determinada a suspensão do feito pelo prazo de um ano, na forma do art. 40  da Lei 6.830/1980, com ciência da Fazenda em 20/04/2018. (Evento 83).

Em 09/05/2018,(Evento 85), a União requereu penhora de faturamento, pedido indeferido em 30/05/2018. (Evento 87).

Em 09/07/2018, (Evento 93, OUT34), a exequente reiterou o pedido de redirecionamento do feito aos sócios, o que foi deferido em 24/09/2018, diligência frustrada, conforme certidão. (Eventos 95 e 101).

Em 14/12/2018 determinada suspensão do feito por 60 dias em razão do anúncio do óbito da parte executada, determinando a exequente que promova as providências necessárias.(Evento 102),

Em 15/01/2019,(Evento 107), a União requereu a indisponibilidade de bens, o que foi indeferido em 31/01/2019.(Evento 111).

Em 03/04/2019 sobreveio a sentença declarando a ocorrência da prescrição intercorrente(Evento 117).

6. No caso, não se vislumbra a paralisação do feito por período superior a 5 anos. Nesses autos, houve duas suspensão da execução na forma do art. 40  da Lei 6.830/1980. A primeira em 02/10/2017,(Evento 60) e a segunda em 13/04/2018,(Evento 79).

7. Contando da data da última suspensão do feito em  13/04/2018,(Evento 79) até a data da prolação da r. sentença reconhecendo a prescrição  em 03/04/2019,​(Evento 117),  não decorreu o prazo de um ano de suspensão, mais o prazo de cinco anos da prescrição.  

8. Conclui-se, portanto, que, tendo sido proferida sentença de extinção fulcrada no reconhecimento da prescrição intercorrente antes do decurso do lapso prescricional legal, a anulação da sentença é de rigor, com o retorno do curso do feito executivo.

Ante o exposto, voto no sentido de DAR PROVIMENTO À APELAÇÃO  para anular a r. sentença, determinando o retorno dos autos à Vara de origem para regular prosseguimento do feito​.



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Apelação Cível Nº 0517845-33.2011.4.02.5101/RJ

RELATOR: Desembargadora Federal CARMEN SILVIA LIMA DE ARRUDA

VOTO DIVERGENTE

Com a devida máxima vênia, divirjo do voto da Exma. Sra. Des. Fed. Relatora porque a parte devedora deixou de existir e ninguém a sucedeu. O MM. Juízo "a quo", por sinal, no EVENTO 102, intimou expressamente a União Federal/Fazenda Nacional a emendar o polo passivo e ela não fez isto. Então, falta uma condição de ação - a existência de "partes". E daí porque não vejo nem interesse jurídico de a União Federal/Fazenda Nacional apelar contra a decretação da prescrição intercorrente. Isto posto, voto no sentido de manter a extinção decretada pela sentença, embora por conta de fundamento diferente - a inexistência da parte devedora. 



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TRIBUNAL REGIONAL FEDERAL DA 2ª REGIÃO

Apelação Cível Nº 0517845-33.2011.4.02.5101/RJ

RELATOR: Desembargadora Federal CARMEN SILVIA LIMA DE ARRUDA

EMENTA

TRIBUTÁRIO. APELAÇÃO. PRESCRIÇÃO INTERCORRENTE. NÃO OCORRÊNCIA. TEMA 566 DO C. STJ. ARTIGO 40 DA LEI 6.830/80 - LEF. PRAZO PRESCRICIONAL QUINQUENAL NÃO TRANSCORRIDO. SENTENÇA ANULADA.

1. Apelação em face da r. sentença que declarou a prescrição e extinguiu a Execução Fiscal.

2. O Tema 566 do C. STJ (REsp nº 1.340.553, de relatoria do i. Ministro Mauro Campbell Marques), submetido ao rito dos recursos repetitivos, definiu as regras de da prescrição intercorrente do art. 40 da Lei nº 6.830/1980. 

3. Conforme definido pelo C. STJ, o prazo de 1 (um) ano de suspensão do processo previsto no art. 40 da Lei n. 6.830/80 - LEF tem início automaticamente na data da ciência da Fazenda Pública a respeito da não localização do devedor, findo o prazo de 1 (um) ano de suspensão, tem início o prazo prescricional aplicável. 

4. Contando da data da última suspensão do feito em  13/04/2018, até a data em que proferida a  sentença reconhecendo a prescrição,  03/04/2019​, não decorreu o prazo de um ano de suspensão, mais o prazo de cinco anos da prescrição.  

5. Conclui-se, portanto, que, tendo sido proferida sentença de extinção fulcrada no reconhecimento da prescrição intercorrente antes do decurso do lapso prescricional legal, a anulação da sentença é de rigor, com o retorno do curso do feito executivo.

6. Apelação que se dá provimento.​​

ACÓRDÃO

Vistos e relatados estes autos em que são partes as acima indicadas, a Egrégia 4a. Turma Especializada do Tribunal Regional Federal da 2ª Região decidiu, por maioria DAR PROVIMENTO À APELAÇÃO, vencidos o Desembargador Federal ALBERTO NOGUEIRA JUNIOR e a Juíza Federal GERALDINE PINTO VITAL DE CASTRO, nos termos do relatório, votos e notas de julgamento que ficam fazendo parte integrante do presente julgado.

Rio de Janeiro, 22 de novembro de 2022.



Documento eletrônico assinado por CARMEN SILVIA LIMA DE ARRUDA, Desembargadora Federal Relatora, na forma do artigo 1º, inciso III, da Lei 11.419, de 19 de dezembro de 2006 e Resolução TRF 2ª Região nº 17, de 26 de março de 2018. A conferência da autenticidade do documento está disponível no endereço eletrônico https://eproc.trf2.jus.br, mediante o preenchimento do código verificador 20001194066v4 e do código CRC 535c8866.

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Extrato de Ata
Poder Judiciário
Tribunal Regional Federal da 2ª Região

EXTRATO DE ATA DA SESSÃO VIRTUAL DE 22/11/2022

Apelação Cível Nº 0517845-33.2011.4.02.5101/RJ

RELATOR: Desembargadora Federal CARMEN SILVIA LIMA DE ARRUDA

PRESIDENTE: Desembargador Federal LUIZ ANTONIO SOARES

Certifico que este processo foi incluído na Pauta da Sessão Virtual do dia 22/11/2022, na sequência 107, disponibilizada no DE de 09/11/2022.

Certifico que a 4a. TURMA ESPECIALIZADA, ao apreciar os autos do processo em epígrafe, proferiu a seguinte decisão:

APÓS O VOTO DA RELATORA, DESEMBARGADORA FEDERAL CARMEN SILVIA LIMA DE ARRUDA, NO SENTIDO DE DAR PROVIMENTO À APELAÇÃO, O VOTO DO DESEMBARGADOR FEDERAL ALBERTO NOGUEIRA JUNIOR INSTAURANDO A DIVERGÊNCIA NO SENTIDO DE NEGAR PROVIMENTO À APELAÇÃO, E O VOTO DO DESEMBARGADOR FEDERAL FIRLY NASCIMENTO FILHO ACOMPANHANDO A RELATORA, O JULGAMENTO FOI SUSPENSO POR FORÇA DO RESULTADO NÃO UNÂNIME. ATO CONTÍNUO, PROSSEGUINDO NO JULGAMENTO NA FORMA DO ART. 942 DO CPC/15, APÓS O VOTO DO DESEMBARGADOR FEDERAL LUIZ ANTONIO SOARES ACOMPANHANDO A RELATORA, E O VOTO DA JUÍZA FEDERAL GERALDINE PINTO VITAL DE CASTRO ACOMPANHANDO A DIVERGÊNCIA, A 4A. TURMA ESPECIALIZADA, EM QUÓRUM AMPLIADO, DECIDIU, POR MAIORIA DAR PROVIMENTO À APELAÇÃO, VENCIDOS O DESEMBARGADOR FEDERAL ALBERTO NOGUEIRA JUNIOR E A JUÍZA FEDERAL GERALDINE PINTO VITAL DE CASTRO.

RELATOR DO ACÓRDÃO: Desembargadora Federal CARMEN SILVIA LIMA DE ARRUDA

Votante: Desembargadora Federal CARMEN SILVIA LIMA DE ARRUDA

Votante: Desembargador Federal FIRLY NASCIMENTO FILHO

Votante: Desembargador Federal ALBERTO NOGUEIRA JUNIOR

Votante: Juíza Federal GERALDINE PINTO VITAL DE CASTRO

Votante: Desembargador Federal LUIZ ANTONIO SOARES

ELIANE LIMA CAVALCANTI

Secretária

MANIFESTAÇÕES DOS MAGISTRADOS VOTANTES

Divergência - GABINETE 10 - Desembargador Federal ALBERTO NOGUEIRA JUNIOR.

Com a devida máxima vênia, divirjo do voto da Exma. Sra. Des. Fed. Relatora porque a parte devedora deixou de existir e ninguém a sucedeu. O MM. Juízo "a quo", por sinal, no EVENTO 102, intimou expressamente a União Federal/Fazenda Nacional a emendar o polo passivo e ela não fez isto. Então, falta uma condição de ação - a existência de "partes". E daí porque não vejo nem interesse jurídico de a União Federal/Fazenda Nacional apelar contra a decretação da prescrição intercorrente. Isto posto, voto no sentido de manter a extinção decretada pela sentença, embora por conta de fundamento diferente - a inexistência da parte devedora. 



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